Sunday, September 11, 2005

O CÉU

O CÉU


Indubitavelmente, não existe nenhum ponto geográfico em todo esse vasto universo mais interessante que o céu, onde alguns poucos escolhidos e interessados haverão de adentrar para o gozo e descanso eternos. Mesmo que não fosse o melhor de todos, mesmo que fosse uma espécie de Saara ou favela da Rocinha, em face da opção de ir para o inferno – o pior lugar existente no Cosmos para onde irão todos os que forem impedidos de participar das delícias paradisíacas – valeria a pena esforçar-se e dispor-se a pagar qualquer preço para ali estar.

É precisamente por pensar assim que, algumas pessoas, normalmente avarentas para outros empreendimentos, se dispõem a entregar dez por cento de tudo quanto adquirem com o suor de seus rostos e mais outro tanto como oferta mês a mês àqueles que lhes falam desse país magnífico e lhes asseguram um lugarzinho ali.

Um jovem companheiro meu de malhação, pobremente vestido e com aquele olhar de submissão que caracteriza pessoas mais humildes, aproveitando a ocasião em que estávamos só eu e ele na academia, ergueu o pé e, para minha surpresa, mostrou-me a boca enorme que havia no solado de seu tênis. Disse-me que pretendia comprar um outro calçado para exercícios, mas que não iria poder fazê-lo agora por estar preparando-se para a Crisma. Aquilo chamou-me a atenção e pedi-lhe detalhes do que estava dizer-me.

Contou-me que em sua casa haviam seis pessoas. O pai e a mãe não tinham emprego e ele e seus irmãos também estavam desempregados. Viviam, exclusivamente, do que recebiam do Fome-Zero e das ajudas feitas por um avô aposentado residente em outra cidade. Sendo católico fiel, foi-lhe ensinado que um dos passos para a salvação está em participar do sacramento da Crisma. Precisaria, portanto, segurar cada trocado que lhe chegasse às mãos a fim de poder comprar a camiseta, a calça social branca, o sapato, as meias brancas e pagar a taxa de quinze reais cobrada pelo padre. Disse-me que a camiseta branca, vendida normalmente nas lojas a menos de dez reais mesmo quando contendo algumas letras e desenhos, custaria quinze e seria fornecida pela paróquia. Quanto à taxa extra exigida pelo ministrante das bênçãos, não soube dizer-me a finalidade da mesma. Também falou-me de dois reais que lhe foram exigidos para participar de jogos no Iberezão, os quais, em seu entendimento, lhe permitiriam comer alguma coisa de graça no intervalo das brincadeiras e que segundo ele, só lhe permitiram mesmo olhar para a comida ali exposta!

Esse jovem simpático está fazendo um excelente empreendimento, ao menos na opinião de pessoas apegadas à religião. Sacrifica-se agora pelo gozo que lhe está proposto. Vale a pena, no entendimento dele, resistir agora às investidas de jovens sedutoras a fim de partilhar de delícias ao lado do polígamo Davi, a quem Deus, segundo Natã, ofertou as mulheres de seu senhor Saul ou do bem-aventurado Salomão, possuidor de setecentas mulheres. Vale a pena, sim, viver pacificamente aqui, não praticando atos de vingança, a fim de estar ao lado daquele que matou Golias ou do manso Moisés que, em nome de Deus, destruiu populações inteiras enquanto marchava com o povo escolhido para a Terra Prometida. Que é o terreno que se doa para construção de uma igreja em comparação com os jardins celestiais? Vale a pena, sim, ajuntar dinheiro para a Crisma.

Conforme ensina São Paulo em seus livros, a salvação é inteiramente de graça. Todavia, à semelhança de alguém que espontâneamente acrescenta mais algum valor a algo que julga estar adquirindo com pouco custo de sua parte, os fiéis graciosamente dispõem seus bens aos pés dos ministros. Além disso, na mesma Bíblia em que se fala na gratuidade do processo salvífico adverte-se que quem não devolve o dízimo é ladrão e que os ladrões não herdarão o Reino dos Céus.

As religiões podem não levar ao céu após a morte, conforme apregoam, mas trazem conforto, esperança e alegria ao coração dos fiéis dizimistas e ofertantes. Para viver na esperança de estar um dia na glória com o patriarca Noé –aquele que se embriagou e amaldiçoou um dos netos por ser filho do homem que viu a sua nudez – vale a pena, sim, abster-se do álcool, do fumo e das drogas em geral. Deixemos aquele jovem, em sua simplicidade, com seu tênis rasgado, sonhando com o dia em que poderá andar descalço pisando em ruas de ouro!

Wednesday, September 07, 2005

O DOMÍNIO DAS BARATAS

O DOMÍNIO DAS BARATAS


A educação pública no Brasil – e especialmente no Rio Grande do Norte – está entregue às baratas.

O dicionário Aurélio nos diz que estar entregue às baratas é estar “sem receber os devidos cuidados; abandonado”. É precisamente isso que vemos para onde quer que nos volvamos.

Foi noticiado em um de nossos jornais - O Poti - "Alunos da 4ª série das escolas públicas do Rio Grande do Norte estão entre os piores do país quando se trata de ler. Um quadro ruim dentro do nordeste, a região pior colocada."

Temos um grande número de professores e supervisores não preparados, não atualizados com o progresso na área da educação. Pessoas que pararam no tempo não exatamente por culpa individual, mas porque lhes faltou incentivos e meios para se desenvolverem. Homens e mulheres que não dispõem de recursos para adquirir livros, que não têm acesso a computadores e muito menos à internet. Nossos alunos alunos permanecem reféns de metodologias ultrapassadas no que concerne ao aprendizado e da matemática. A maioria de nossas escolas, em plena era da informática, continua a fazer uso do já ultrapassado mimeógrafo e de máquinas datilográficas velhas e antiquadas, geradoras de tanta confusão na hora de entender o que está escrito na prova. B anheiros imundos, com suas descargas quebradas e jamais consertadas com base na alegação de que faltam recursos; funcionários desestimulados que não executam bem (e até com uma certa razão) o que lhes é requerido; merenda não muito variada e que não atende bem às necessidades nutricionais básicas; diretores, cujo único compromisso parece ser com aqueles que antidemocraticamente os empossaram em troca de apoio político. Grande parte dessas escolas não dispõe de conselhos escolares atuantes.

Vimos em 2005, em nosso estado, professores em greve batalhando pelo atendimento a justas reivindicações e assistimos ao descaso do governo estadual que permitiu se estendesse a greve por tempo demasiado longo fazendo ouvidos moucos ao clamor dos educadores, prejudicando, desse modo, o ano letivo, matando no cansaço e por fim fazendo parar a greve com promessas mentirosas.
Por estar a educação entregue às baratas, não tem havido uma aprendizagem efetiva. Essa situação precisa mudar urgentemente, pois de um país ou estado que fracasse no campo educacional não se pode esperar muita coisa. Com o estabelecimento de eleição para diretores de escola e a ativação dos conselhos escolares, esperamos uma profunda reflexão por parte de educadores e educandos no sentido de buscarem fazer escolhas sábias. Nas próximas eleições, de igual modo, teremos uma oportunidade de “dedetizar” o nosso sistema educacional. Aproveitemos a chance e façamos uma assepsia geral!

(GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS)

Sunday, August 28, 2005

A CURA


A CURA

A moça da foto chama-se Francisca Estelita. Somos colegas de trabalho e eu a conheço há muitos anos. Carinhosamente, nós a chamamos de Lita.
Há quase seis anos ela foi acometida de um mal degenerativo diagnosticado pelos médicos como Doença de Wilson ou degeneração hepatolenticular. Males terríveis lhe advieram como conseqüência e ela teve que começar a andar usando aparelhos nas pernas.

A família, naturalmente, ficou grandemente deprimida. Ela, todavia, sendo profundamente religiosa e ligada ao movimento carismático católico, nunca perdeu as esperanças de um dia voltar ao normal. Repetia sempre para a família: “Um dia Jesus vai me curar”.
Ao mesmo tempo em que se submetia a todos os tratamentos para diminuição do acúmulo de cobre em seu hepatócito e em outros órgãos, não perdia nenhuma das chamadas missas de cura e de libertação.

Sua situação aparentava ser insolúvel. Às vezes caía, mesmo estando com os aparelhos, e não sentia absolutamente nada quando alguém beliscava-lhe a perna. Disse-me ela: “O médico, um especialista em doenças raras, afirmou que minha doença não tinha cura e a tendência seria só piorar. Caso eu me tratasse adequadamente, as seqüelas estacionariam, mas, de modo algum, eu poderia voltar a ser como antes”.
Em uma dessas missas, porém, realizada em agosto de 2005, estava ela participando da oração quando sentiu um formigamento nas pernas e começou a agitar-se dizendo que Jesus a tinha curado. Muitos de seus irmãos na fé não deram muito crédito e não se deixaram envolver pela euforia achando que fosse impressão sua.

Quando ela veio da próxima vez à escola onde trabalhamos trazia um brilho nos olhos e um sorriso contagiante, mas ainda usava os aparelhos. Um dos colegas, sem que ela o percebesse, deu-lhe um forte beliscão para confirmar se de fato alguma mudança ocorrera e ela reagiu como quem sentira o aperto digital.
Em suma, passou ainda uns dias andando assim, com os aparelhos, mas treinando em casa para readaptar-se ao modo como andava cinco antes e hoje circula pela cidade sem auxílio da parafernália metálica.

Esse caso chamou-me a atenção. Alguns evangélicos e céticos com quem conversei têm opiniões divergentes quanto ao fato. Quase todos titubearam quanto ao que fosse. Uns acham ter sido auto-sugestão ou o poder da mente, outros disseram que a fé cura seja em que igreja for, mas fizeram ressalvas: “Ela obteve a cura física mas e a cura espiritual, como é que fica se não obedecer à Bíblia?”. Houve quem fosse categórico em dizer que foi Jesus quem a curou porque “Ele opera em qualquer lugar” e que a responsabilidade por possíveis erros abraçados por ela recairiam sobre a cabeça dos dirigentes espirituais. Obviamente, não faltou quem afirmasse ter sido uma obra do Anjo Mal, que realiza maravilhas com o intuito de enganar os eleitos de Deus. Achei desnecessário indagar de algum católico a sua opinião. Certamente os católicos de minha comunidade (com exceção dos mais tradicionalistas, avessos à abordagem carismática) crêem ser isso uma prova da presença de Deus no meio deles.

Desse episódio restaram-me diversos questionamentos e algumas poucas conclusões, não muito seguras. Permita-me apresentar-lhe um pouco dessas perguntas:
Se, apesar dos erros da Igreja Católica, como crêem os evangélicos, foi obra do poder de Jesus, não estaria Deus com isso incentivando Estelita e seus sinceros irmãos a permanecerem naquela instituição, crendo que O mesmo pôs seu selo de aprovação sobre ela?
Se foi o diabo o responsável por esse bem-estar, não seria algo estranho da parte de Deus permitir que inocentes sejam assim enganados?
Deveriam os católicos concluir que isso é um sinal de que fazem parte da igreja verdadeira quando, em outras igrejas, estão a ocorrer diariamente fenômenos similares?
Se foi poder da mente, auto-sugestão, ou a eficácia da fé em si, não deveriam os céticos passarem a ver algo de bom nos “engodos” religiosos? Não para si mesmos, digo, mas para aqueles que não perderam a fé ainda.
Ainda para os ateus: é melhor viver crendo num engano que produz resultados ou, à semelhança de Tomé, viver sem esperanças? Se a fé, independentemente do seu objeto, leva o corpo à auto-recuperação, seria conveniente deixar os pobres crédulos sem essa fonte de auto-ajuda eficaz?

Penso que o otimismo e a esperança produzem bons resultados, ao menos por algum tempo. Acho que estes devam ser os principais remédios receitados por um médico a qualquer paciente, não importando o seu estado. É claro que se ele enfatiza os resultados desastrosos para quem não segue direitinho o tratamento também não está errado. Uma fé que estimule o abandono de acompanhamento médico não me parece muito sadia. Estelita fez as duas coisas. Quanto à doença de Wilson, conclui, de minhas pesquisas, que há medicamentos capazes de livrar o organismo do excesso de cobre e se trata, portanto, de um mal ao menos controlável. Enquanto fazia exames e ingeria remédios adequados, minha amiga encontrou apoio psicológico e espiritual a cada missa que freqüentava. Finalmente, veio a cura! Seria essa a explicação adequada?
Tenhamos uma atitude respeitosa para com aqueles que mantêm alguma das opiniões aqui apresentadas com a qual não concordemos. Somos parte de uma mesma teia, chamada humanidade, e vivemos imersos no mistério e na ignorância.


*P.S: O problema retornou meses depois e ela voltou a usar os aparelhos...

Sunday, August 21, 2005


O BEM E O MAL



Que é o Bem e que é isso que chamamos de Mal? O bem, segundo o dicionário, é “Qualidade atribuída a ações e a obras humanas que lhes confere um caráter moral”. Já a definição de mal é: “Aquilo que é nocivo, prejudicial, mau; aquilo que prejudica ou fere”.
Como vemos, essas definições são tendenciosas, relativas e visam primordialmente aquilo que seja melhor para a espécie humana. Atirar em uma fera para salvar a vida de uma criança é universalmente visto como um bem ao passo que para a leoa faminta e preocupada com seus filhotes seria classificável como um mal. Quando falamos que a preservação da vida é um bem certamente não nos estamos referindo aos seres que sacrificamos nos açougues nem aos insetos que consideramos nocivos. O Mal e o Bem são relativos.
O mal do bem é que ele é raro e às vezes é apenas o mal disfarçado. Dizem que o bem sempre acaba vencendo. Todavia, enquanto não vence, o mal reina despótico deixando marcas irreversíveis.
Todo bem teria vindo de Deus -o Bem Absoluto - e todo mal de Satanás -o Mal Absoluto. Mas um bem de Deus poderia tornar-se um mal (Lúcifer veio de Deus) e um mal de Satanás, nas mãos de Deus, poder-se-ia transformar num bem!
O mal do bem é que praticamente em cada ego humano ele tem um inimigo que, em nome do bem-próprio, pratica o mal atentando contra o bem-comum. O mal do bem também é que ele, às vezes, é visto como um mal e assim conduz muitos ao sofrimento e à morte. O bem, portanto, pode fazer um certo mal a quem o defende.
Quantos males, no desenrolar da História, se demonstraram bens! Quantos bens, no avançar dos séculos, se demonstraram males!
Às vezes se faz o mal para estabelecer o bem, às vezes se faz o bem para estabelecer o mal
Poucos crêem, de fato, que o bem finalmente triunfará. Por isso há tão poucos que lutem por ele.

aprender




APRENDER



A capacidade de crescer em habilidades e conhecimentos é o que há de mais sublime na espécie humana.
Muitos, que foram impedidos de crescer no plano físico tanto quanto gostariam, poderiam agigantar-se em espírito caso se dedicassem à leitura, reflexão e observação atentas. O aguçamento e a satisfação da curiosidade, tão comum na infância, é-nos uma fonte de grandes alegrias.
Desenvolver habilidades e conhecimentos não deve ser visto como algo necessário apenas para a aquisição de um bom emprego ou de melhores notas e sim como uma fonte de prazer em si. Além disso, quanto mais eu sei e habilidades possuo mais me sinto seguro e estou apto a sobreviver. Você pode não dispor de grandes capitais. Todavia, pode acumular grandes tesouros de sabedoria que transformarão você numa pessoa áurea. Nossa mente é um cofre com proporções quase infinitas onde podemos armazenar a sabedoria contida nos livros e no mundo ao nosso redor.
Alimentar e exercitar a mente é tão essencial para o desenvolvimento interior quanto a boa alimentação e os exercícios adequados o são para o nosso corpo. Três vezes ao dia, pelo menos, você se assenta à mesa objetivando repor suas energias físicas. Uma vez ao dia, pelo menos, você deveria refugiar-se em si mesmo visando o fortalecimento da alma.
Quanto mais eu sei mais eu valho e mais útil posso ser a mim mesmo e à sociedade. Quem vive em busca de novos conhecimentos não perde seu tempo e encontra um sentido para viver. Nunca deixe de ser um estudante.

DEUS


DEUS

Um ser absolutamente mágico, uma espécie de gênio da lâmpada: foi assim que nos acostumamos a pensar em Deus. Assim fomos ensinados e, aparentemente, há evidências bastantes para que assim pensemos. A harmonia celestial e terrestre atestariam isso, a engenhosidade com que os seres foram formados, a grandiosidade do Universo... o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. Quanto a isso a Bíblia simplesmente declara: “No princípio criou Deus os Céus e a Terra”.
Há muita especulação quanto ao quando Deus começou a criar. Uns, firmemente apegados à letra da Bíblia, com base em Êxodo e em partes do Gênesis, chegam a ensinar que Deus começou a fazer tudo a seis mil anos atrás. Outros falam em milhões de anos.
De qualquer modo, sempre me maravilhei tentando imaginar como seria a existência Dele antes de começar a criar qualquer coisa. Entendo que, uma vez que ele sempre existiu, qualquer tempo em que ele tenha começado a criar – seja seis mil anos ou seis bilhões de anos – sempre será antecedido por uma eternidade na qual ele nada criou, uma vez que sempre existiu.
Fico, igualmente, tentando entender como seria existir num “tempo” em que nada mais existia, nem mesmo o tempo! Onde estava ele, uma vez que o espaço ainda não fora criado? (Ou será que o espaço sempre coexistiu com Ele? Seria ele o próprio espaço? Talvez alguém sugira que Deus é onipresente e que, paradoxalmente, não ocupe espaço!. Se tinha olhos (o que penso que não), nada podia ver porque nada fora feito ainda, sem luz ao seu redor, se é que havia “ao redor”. Estava “ali” (onde?), não apoiado em nada, sem comer, sem beber, sem dormir, sem fazer absolutamente nada e absolutamente invisível, posto que não era um ser material. Provavelmente parado pois, sendo onipresente, não necessitaria movimentar-se nem haveria espaço para isso. Seria feliz? Penso que sim, pois nada lhe faltava e era todo-suficiente. Será que ele se surpreendia com o fato de não ter nenhum originador, com o fato de simplesmente existir sem nenhuma explicação? Solitário, imerso no silêncio (lembre-se que ainda não haviam anjos tocando harpas em seu louvor), com um passado infinito atrás de si no qual nada ocorrera, sabendo tudo que ocorreria – que iria tornar-se criador, que muitos dos seres criados viriam a se rebelar e viriam a trazer grandes sofrimentos para si mesmos e para outros (aliás, o sofrimento não existia até então), não só sabendo de tudo mas podendo interferir no próprio futuro.
Sendo Imutável, não se pode dizer que houve, propriamente, um momento em que Ele resolveu criar. Creio que ele não tem insights como nós e não carece de exercitar o pensamento como Suas criaturas ditas superiores. E algo interessante em particular nos maravilha, o fato de ele ter feito tudo não de si mesmo, mas a partir do nada, pelo menos em conformidade com a visão cristã. Ele, por si só, mesmo que nada viesse a fazer, já seria algo extremamente fantástico e, além disso, tendo a capacidade de fazer qualquer coisa simplesmente ordenando, sem necessidade sequer de “tocar” em algo e sem depender de matéria preexistente, faz-se inconcebível à compreensão humana.
Parece-nos grande tolice crer que algo possa existir sem que alguém o tenha concebido. Todavia, quando se trata da existência Dele – o mais fantástico dos seres - , aceitamos numa boa. Aquele que pensa com perfeição, que nem necessidade de pensar tem para compreender as coisas, sem ferramentas, sem mãos e matéria bruta, criou todas as coisas. Dizemos que nada pode surgir do nada (e isso nos serve de base para crermos na existência dEle), mas admitimos que Ele tudo criou a partir do nada. Como entender tudo isso? Parece-nos fantástico demais.
Na verdade, antes da criação, só haveria o Ilimitado e tudo seria perfeito. Imperfeições e limitações só teriam passado a existir quando ele começou a criar. A própria limitação, em si, já seria uma imperfeição dos seres. Como ele tudo podia fazer, poderia criar seres tão capacitados quanto ele, mas optou por fazê-los inferiores e programou-os para que só fossem supremamente felizes servindo-o e louvando-o.
Encanta-me também pensar na seguinte diferença entre mim e Ele: eu sou um ser resultante de uma soma. Diversos órgãos me fazem. A palavra “corpo” significa exatamente isso, “soma”. Ele, todavia, decerto seria um todo indivisível.
A idéia de Deus resolve o problema da existência do universo, mas deixa-nos o problema da existência dEle. Para qualquer linha de raciocínio que nos volvamos quanto a esse tema, sempre restarão indagações profundas e irrespondíveis.

Sunday, August 14, 2005

ALGO QUE NÃO SEI EXPLICAR


ALGO QUE NÃO SEI EXPLICAR


Era o mês de outubro, uma segunda-feira. Estava eu indo de Santa Cruz a São Bento em minha motoca por uma pista grandemente escura. Com o capacete frouxamente preso à cabeça, sentia o impacto causado no mesmo pela batida do vento forte. Ia assim, por não gostar de andar com nada me apertando. Relógio, para mim, tem que estar com o bracelete folgado; meu cinturão, quando o puxo, deixa um certo espaço que dá para dobras e parece servir-me apenas de enfeite. Aprecio sapatos folgados e roupas um pouquinho maiores que as minhas medidas. Naquela hora, porém, enquanto me dirigia ao ambiente de trabalho, tomei a decisão de, ao retornar para casa, vir com o capacete devidamente afivelado, mesmo que isso viesse a me causar um certo incômodo.
Já na escola, guardei-o e fui à sala para dar o primeiro horário. No segundo horário, todavia, deu-me aquela vontade de ir pegar o capacete a fim de fazer em sua fivela os devidos ajustes e obedeci ao impulso momentâneo. A partir do quarto horário, fui convidado a participar de uma festa surpresa promovida pelo terceiro ano em homenagem à minha data natalícia. Em meio àquela animação toda, nem me passava pela mente a gravidade do que estava para me acontecer ainda naquela noite!
Retornamos a Santa Cruz eu e um conterrâneo que trazia no bagageiro de sua moto uma de minhas alunas. Antes, porém, de dar partida no transporte, tive todo o cuidado, pela primeira vez na vida, de apertar bem o capacete. Viemos eu um pouco à frente e eles atrás numa distância que nos permitia trocar algumas palavras enquanto viajávamos. Acelerei a moto, na ânsia de chegar em casa e assim, dentro de pouco tempo, havíamos cruzado toda a pista escura e estávamos precisamente na entrada da cidade quando um cachorro inesperadamente atravessou a pista e eu, na tentativa de livrá-lo, acabei me esborrachando na pista.
Permaneci desacordado por alguns instantes e pela violência do impacto todos os que saíram de suas casas juntamente com meus acompanhantes acharam que eu havia morrido. Quando acordei vi-me com a roupa e sapatos todo em frangalhos, a moto voltada para o lugar de onde viéramos e o capacete profundamente arranhado. Ouvi quando disseram: “Só escapou por causa do capacete!” e foi verdade mesmo.
Isso não deixou de me causar uma certa impressão. Por que só, exatamente naquele dia do acidente, eu tomei a firme resolução de andar com o capacete devidamente posto? Alguém pode dizer que Deus ouviu minhas orações, mas o fato é que, devido a fase de descrença que estava atravessando, não orara ao sair para o trabalho nem ao retornar. Teria sido isso um simples acaso, uma feliz coincidência? Sinceramente não sei, isso é algo que não sei explicar.
O certo é que até hoje tenho em alguns de meus dedos e joelhos as marcas desse acidente e na mente a forte impressão de algo estranho me ocorreu naquele dia, algo estranho que pode ter sido um simples acaso.

EXPERIÊNCIA HORRIPILANTE


EXPERIÊNCIA HORRIPILANTE


Sempre tive medo de almas, mesmo depois que perdi a crença na possibilidade de que elas pudessem me assustar. Um padre amigo e, posteriormente, pastores, fizeram-me entender que quem morre não volta para assustar ninguém, mas eu continuei a temer que o Diabo ou a minha própria mente viessem a me pregar uma peça fazendo-me ver ou ouvir o que não existe.
Além disso, ainda hoje, tenho dificuldades de deleitar-me com algumas músicas clássicas, pois eram precisamente estas que o pároco de minha cidade punha para tocar quando anunciava os enterros. E quando alguém em minha cidadezinha batia das botas e partia desta para melhor, era um deus-nos-acuda: geralmente dormia mal e não tinha coragem de ir ao sepultamento.
Até que um dia alguém ensinou-me que havia um santo remédio para isso. Eu deveria ir participar da vigília a algum finado e apalpar diversas vezes os pés do falecido. A promessa era de que eu passaria a não mais ter medo dos que se vão.

Cheio de esperanças, fiquei aguardando o próximo a ser ceifado até o dia em que me vi timidamente massageando os dedos e tornozelos de um senhor que falecera de asma. Senti-me extremamente corajoso ao executar aquele ritual, mas de nada me adiantou! Mas nem de longe foi essa a minha experiência horripilante.

Já depois de adulto, passei a dormir sozinho numa casa extremamente deteriorada onde também funcionava uma igreja adventista. Ali, apesar do medo, passei a dormir com as luzes apagadas por uma questão de economia.
Dizia-se coisas terríveis acerca daquela residência: alguém nela havia morrido enforcado e antes funcionara ali uma prisão. Mas eu não me deixava impressionar por essas coisas até o dia em que ocorreu o que passo a contar agora.
O culto acabou, todos se foram, fechei as portas, apaguei todas as luzes e ajoelhei-me para pedir a proteção divina antes de dormir. A noite, como sempre naqueles arredores àquela hora, estava extremamente silenciosa. De repente, em alto e bom som, o violão que eu deixara deitado em cima do púlpito começou a tocar!
Desnecessário é-me dizer que um suor frio percorreu toda a espinha daquele penitente semi-desnudo ajoelhado. Os poucos pêlos de meu corpo logo se eriçaram e eu agucei os ouvidos para ver se o fenômeno se repetia. Repetiu-se sim, não apenas uma vez mas três ou quatro! Obviamente trêmulo, orei com muito fervor para que Deus afastasse da igreja o suposto capeta.
Levantei-me vagarosamente e fui em busca do interruptor que ficava na outra sala. Que dificuldade para encontrá-lo!
Acendi as luzes e com o coração acelerado aproximei-me do instrumento que jazia inerte sobre a mesinha, na mesma posição em que eu o deixara. De repente ouvi outro som agudo, já agora após acesas as luzes!
Ao investigar bem, torcendo grandemente para que não fosse algum fenômeno produzido pelo anjo das trevas, pude desvendar o mistério dos toques: um grilo verde, que inadvertidamente se alojara no violão, estava tentando sair, mas ao tentar escapar batia nas cordas!
Hoje, prezado amigo, posso dizer que perdi dois medos: o medo de que almas me apareçam e o medo de que o demônio se disfarce e venha me atemorizar, mas continuo a temer os fenômenos inusitados que a minha mente é capaz de produzir e as percepções erradas que ela pode me dar.

um domingo diferente


UM DOMINGO DIFERENTE

Orkut, msn, e blog, são-me bastante viciantes. A gente passa a semana labutando, quando chega no final de semana tenta espairecer um pouco em frente ao computador e, quando menos espera, o dia tem-se ido e é hora de dormir para acordar cedo no outro dia.
No último domingo, porém, algo inusitado aconteceu. Meu cunhado ainda estava dormindo quando chegou um de nossos amigos chamando-o para ir ao açude de São Bento. Meu cunhado prontamente ergueu-se com um entusiasmo que não lhe é peculiar e foi arrumar-se para o passeio. Logo entendi o porquê de sua animação: ele havia comprado um anzol desses bem especiais, de origem pretensamente japonesa, desses que se você for ao açude com ele pode até ser que não pesque nada, mas, certamente, conseguirá fisgar alguma garota bela que por ali esteja banhando-se. Um desses anzóis que enchem os olhos de qualquer pescador com a promessa de grandes resultados. Ele ansiava por inaugurar seu instrumento de pesca!
O plano de quem o convidou era irem de moto, mas meu cunhado sugeriu que fossem de carro e insistiu comigo para que eu os acompanhasse. Eu, que não sou muito de sair para passeios ao ar livre, fiquei imaginando qual seria melhor, se navegar na internet ou dar uma volta de canoa no açude em São Bento e trazer alguma proteína para o almoço. Terminei optando pela ida, perguntando-me a mim mesmo se não iria arrepender-me da decisão tomada.
Já em São Bento, apesar de ser uma cidade minúscula, tivemos grande dificuldade para encontrar o rapaz com quem nosso amigo havia idealizado o passeio. Quando conseguimos achar sua moradia, parece que tiveram uma má impressão ao nosso respeito, pois, todos da casa, inclusive o pai, disseram que ali não morava nenhum Carlos e que não sabiam de quem se tratava! Na parede da residência havia um letreiro enorme com os seguintes dizeres: “Vote em Carlinhos, para o Conselho de Saúde.” Passado o impacto inicial daquela busca inesperada, o pai desculpou-se dizendo que a gente havia perguntado por Carlos, mas ele havia se enganado porque em casa só o chamavam de Carlinhos!
Bem, o certo é que nos dirigimos para o açude: eu, meu cunhado, Francisco, Geovani e Carlos. Planejávamos fazer um excelente passeio e, a essa altura, ante a perspectiva de ver algumas moças por lá e com o sonho duma grande pescaria, eu já havia me esquecido da Net.
Estacionamos o carro à porta da casa velha onde ficaríamos, às margens do açude. Carlinhos adentrou às pressas no recinto obscuro e voltou de lá trazendo anzóis para cada um de nós e passou a ensinar-nos que, caso não achássemos minhocas ali, tentássemos pescar usando sementes de quiabo. Era bem melhor, disse-nos ele. Pescava-se bem mais com quiabos que com minhocas. Um deles, o Geovane, disse ao meu cunhado que o anzol dele talvez não fosse muito adequado para pegar piabas e ouviu a réplica em alto e bom som: “Piabas? E quem disse que eu estou aqui para pegar piabas?” E começou a montar o instrumento magnífico, que fisgava os nossos olhos.
Carlinhos estava certo. Para minha surpresa, as sementes dos quiabos colhidos nos arredores eram, de fato eficazes. Geovani teve a idéia de usar, ao invés da semente, as cascas do quiabo e também deu certo! Havíamos atravessado duma margem para outra em uma canoa e estávamos sobre uma pedra larga, à espera dos peixes famintos. Peguei o meu primeiro e fiquei radiante: uma piaba relativamente grande. Geovane também pegou o seu, Francisco, Carlinhos. Aliás, eu e Carlinhos fizéramos uma disputa para ver quem pescaria mais. Ah, ia me esquecendo: quanto às tão sonhadas e desejadas garotas não havia nenhuma por ali. Quanto a Valério, o meu cunhado, com seu anzol maravilhoso, não havia conseguido pegar ainda nenhum! Ficamos rindo da cara dele, até que ele apresentou-nos uma piaba assaz conformada com o destino que lhe fora imposto pelo pescador. Deu-nos a impressão de que ele a pegara morta, enquanto boiava perto dele, ou que fora colhida não propriamente pelo anzol mas graças a uma varada certeira!
Resumindo a história, retornamos para casa quase ao meio dia. Eu, que não tenho muito costume de viver ao ar livre, com a pele bastante castigada pelo sol, Valério decepcionado com o anzol caro e Diassis triste porque não vira nenhuma garota!
Saímos da canoa trazendo nove piabas para serem partilhadas entre 5 pescadores! Piabas magras, diminutas, desfalecendo ante nossos olhos e servindo-nos de chacota. Tivemos, é verdade, um pouco de alegria, às nossas próprias custas, com base nas ocorrências daquela manhã improdutiva! Retornei para casa ansioso para aproveitar o restinho do dia em frente ao computador e para partilhar essa história com meus amigos.

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